Enquanto continuo sonhando e tentando ser nada de tudo que eu já pensei um dia, acho essas de fotos baixo perdidas por acaso. Definitivamente não me importaria de viver assim, eu seria muito mais feliz.


Porque, há muito, eu erro a mão. A dose. Esqueço a receita do equilíbrio. O quanto uso das partes que brigam dentro de mim. Há muito, eu me confundo. Porque metade não tem medo e levanta os braços, na descida da montanha-russa. Olhos abertos, enquanto outra acha melhor enfrentar a queda com as mãos na barra. Segurando forte. Espremendo os dois olhos, fechados, desde o começo do percurso. Das travas descidas sobre a barriga. Porque metade prefere brincar na beira da praia. No raso. Enquanto outra não vê problemas em pular dezenas de ondas e nadar onde a pequena bandeira vermelha, agitada pelo vento, avisa sobre o risco. Sobre a possibilidade de afogamento. Porque, há muito, eu erro a receita do equilíbrio. Uso a parte que não deveria na hora em que não poderia. Me confundo com as metades que brigam dentro de mim. Porque parte acelera na estrada, no momento da curva fechada. Pé direito até o fim, enquanto outra freia, bruscamente, ao ver a primeira placa. Seta torta, avisando sobre o perigo. Metade não suporta a burrice, a pequenez, a lerdeza. Outra, sempre calada, tolera a banalidade. Engole a ignorância. Convive com a mediocridade. Há muito, eu erro a mão. A dose. Me confundo com o que devo usar. Porque metade briga. Explode. Aponta o dedo na cara, enquanto outra se recolhe, quieta, debaixo da cama. No quarto fechado. No tudo escuro. Eu tenho uma metade que berra. Outra que sussurra. Uma parte que acredita em finais felizes. Em beijo antes dos créditos, enquanto outra acha que só se ama errado. Eu tenho uma metade que mente, trai, engana. Outra que só conhece a verdade. Uma parte que precisa de calor, carinho, pés com pés. Outra que sobrevive sozinha. Metade auto-suficiente. Mas, há muito, eu erro a mão. A dose. Esqueço a receita do equilíbrio. Me perco. Há dias em que uso a metade que não poderia. Dias em que me arrependo de ter usado a que não gostaria. Porque elas brigam dentro de mim, as metades. Há algumas mais fortes. Outras ferozes. Há partes quase indomáveis. Metades que me fazem sofrer nessa luta diária. No não deixar que uma mate a outra.


Havia Marylins Monroes e toda gana de Fords, "I Love New York" teu vidro dizia. Teu cheiro lembrava James Dean que eu nunca vi e você me falava que eu já vivi. Teu relógio certeiro cortou minha lágrima, teu lenço em meu cabelo não deixou de sorrir e toda Chicago que havia em teu quarto você pôs aos meus pés e pediu pra eu não ir.
Você fez a cama e o jantar, quebrei teu espelho no meu dedo, você limpou meu azar. Sofia Loren também estava presente Le Homme, La Femme ensinava pra gente: O neoromantismo acabou por ficar. Só tenho pena do tango que eu massacrei ao dançar. Áfricas de ousadias nos navios pendentes, negro aflorava teu beijo mais quente afrontando meus lábios e eu pude sorrir.
Qualquer affair, qualquer delícia.
Alan Delon pode copiar teu cabelo e era meu o vestido vermelho que cheirou tuas mãos antes de mim. Havia qualquer condimento asiático, o filme no vídeo era muito mais rápido e teus olhos eram os meus que olhavam pra mim. A primeira lágrima no momento foi tua e estava tão perto que eu bebi.
Havia um blues, uma coca em lata. A saudade do que a gente não conhecia nos ensinou a refletir. Teu relógio certeiro cortou minha lágrima, teu lenço em meu cabelo não deixou de sorrir e toda Chicago que havia em teu quarto você pôs aos meus pés e pediu pra eu não ir.